Era apenas um portão como centenas ou milhares existentes na cidade, porém ele causava uma sensação estranha em Carlos que havia até ajudado a construí-lo anos atrás.
Os anos foram passando, várias pinturas foram feitas no muro e nas grades existentes em cima como ornamentação, cujos desenhos eram semelhantes aos do portão: umas circunferências circundadas por pontinhos que davam a impressão de Sol com seus raios.
Carlos, porém quando olhava para o portão sentia algo estranho.
A casa foi reformada, o muro foi reconstruído, mas o portão não fora trocado por insistência de Carlos que discutiu, esbravejou, virou a mesa e não deixou retirarem o velho portão.
Maria Clara esposa de Carlos, uma noite quando estavam sem sono conversando puxou o assunto do portão:
__ Querido esse negócio de você não deixar mexer no tal portão me preocupa. Afinal o que existe de tão importante nele?
__ Você é a única pessoa com a qual eu confidencio, portanto vê se me entende. Existe uma coisa esquisita no portão que me causa uma grande preocupação. Às vezes ele representa para mim como uma esperança, uma única chance de encontrar algo que nem mesmo eu sei o que é. Só sei que parece muito importante ou uma resposta para um enigma.
__ Mas isso é ridículo! É místico demais! É idéia fixa em algo que nem você acredita.
__ Eu não sei bem ao certo, mas tenho a nítida impressão que por esse portão entrará uma resposta para uma grande dúvida.
__ Seria porque você colocou o nome de todos os nossos filhos gravados nele?
__ Talvez! Por que não?
Foram passando os anos, os filhos de Carlos cresceram, casaram-se todos, com exceção de um que se enveredou por caminhos tortuosos: Viciou-se em drogas e causou muitos problemas à família. O casal sofreu muito, pois fizera tudo o que podia ser feito para livrar o filho da dependência. Tudo em vão. As picadas em parceria com outros resultou no pior: o emagrecimento, as gripes freqüentes, a pneumonia, os internamentos, a tuberculose e por fim a morte. A AIDS fazia mais uma vítima.
O choque foi muito forte para a família. Os outros filhos de Carlos, num total de quatro, tiveram filhos e as crianças aos poucos, com o desenvolvimento da idade iam fazendo Carlos esquecer o sofrimento pela perda de seu quinto filho.
Em frente à casa, a poucos metros do portão existia uma árvore conhecida como Sibipiruna e era ali que Carlos passava suas tardes sentado em seu velho banco curtindo os seus sessenta e cinco anos.
Os netos, que sempre vinham visitá-lo, quando chegavam ao portão colocavam a cabeça na parte esférica em forma de Sol e faziam mil caretas.  Carlos sorria, mas às vezes lhe vinha o pensamento: Faltavam os filhos daquele que partira antes do tempo. Era o único desgosto do ancião. Jamais se esquecera do seu quinto filho, mesmo depois de tantos anos.
Numa noite clara de Lua cheia, lá estava Carlos sentado, sem camisa, só de calção no surrado banco olhando para o portão, como se dali viesse um consolo para sua dor...
De repente o portão ficou claro, como a neve e ele viu claramente o rosto querido sorrindo dentro da esfera circundada pelos raios, fazendo muitas micagens. (caretas) Pareceu ouvir a mensagem: "Não fique triste! Sempre que posso venho até aqui e vejo você. Eu não morri. Apenas passei para o outro lado".
Carlos jamais soube se foi miragem ou uma materialização da sua vontade. Uma coisa muito importante viera através do portão: O despertar de uma fé maior do que as lágrimas antes derramadas. Carlos começou a acreditar que não existe um final, mas uma escala a ser cumprida: O universo respira! Vive!
 
LUIZ GONZAGA DA SILVA
 
 
 
 
O QUINTO FILHO