A CIDADE DOS SONHOS
 
Alfredo certo dia estava pescando com alguns companheiros em um rio cercado de barrancos altos, nos quais se destacavam algumas entradas como se fossem cavernas nunca exploradas ao que parecia, em razão da vegetação em forma de trepadeiras existente em abundância nas entradas que davam calafrios pelas teias de aranha de pernas longas e de aspectos horríveis.
Alfredo distanciou-se um pouco de seus companheiros a procura de algum poço onde pudesse fisgar algum peixe diferente, que não fosse os costumeiros Piaus e Corimbas que infestavam as "Cevas" existentes. Chegou a um barranco onde a água era parada, o que indicava um ótimo local para se pescar algum Pintado ou um outro tipo de peixe que prefere os poços profundos. Sentou-se e pôs-se a observar o ambiente, a vegetação, o movimento das águas e as espécies de aves que orquestravam o local. Nessa observação seus olhos se depararam com uma entrada na parede rochosa a poucos metros de distância de onde se encontrava. O estranho era que a entrada do que parecia ser uma caverna não tinha aquele aspecto horrível das outras que observara. Era convidativa, o que o encorajou a entrar para ver onde ia dar. Se assim pensou assim o fez. Meio emocionado começou a explorar a entrada e viu que ela era extensa, porém, inspirava confiança. Foi olhando tudo enquanto avançava a passo lento, ansioso por saber onde ia dar aquele grande buraco, ao que parecia cavado na pedra.
Após algum tempo de rigorosa análise Alfredo notou que muito embora estivesse a muitos metros da entrada, o local estava com claridade suficiente para ele enxergar onde pisava. Começou a distinguir uma claridade que parecia indicar o final da caverna. Com o coração batendo descompassado aumentou o tamanho das passadas e logo chegou ao que seria o final ou a entrada do outro lado. O que seus olhos viram foi algo fantástico: Uma grande cidade com prédios e casas construídos em arrojado estilo de arquitetura como jamais vira. O curioso é que jamais ouvira falar que existisse uma grande cidade por aquelas bandas. A princípio ficou indeciso se prosseguia ou voltava para contar a seus companheiros a fantástica descoberta. Por fim decidiu: Ia entrar na cidade e descobrir o mistério que envolvia aquele lugar. Logo que pisou a entrada da primeira rua veio a primeira surpresa: Um cidadão todo sorridente lhe estendeu a mão e apertando-a disse:
__ Bom dia, meu irmão! Vamos entrar, tomar um suco ou uma água fresquinha. Esta muito quente hoje.
Dizendo isso quase que arrastou Alfredo até uma porta onde uma senhora muito simpática o recebeu com um largo sorriso estampado no rosto conduzindo-o pela mão até uma sala estupendamente decorada com desenhos curiosos, mas de muito bom gosto. Pois só de olhá-los o visitante sentia uma paz interior.
O homem após acomodar Alfredo em uma repousante poltrona, também se sentou enquanto a senhora pedindo licença retirou-se dizendo ir preparar um suco desaparecendo no comprido corredor ante o olhar surpreso de Alfredo que mostrava indisfarçável curiosidade.
__ O senhor não é daqui, acertei? (perguntou o estranho)
__ Sim. Sinto-me até embaraçado em dizer, mas eu sou do lado de lá da caverna.
__ Ah, então o senhor utilizou-a para chegar até aqui?
__ Sim. Mas o senhor tem conhecimento dessa comunicação entre os dois lados?
__ É difícil explicar: Às vezes alguns curiosos do lado de cá se utilizam dessa via para bisbilhotar o outro lado, mas existe uma proibição pra isso.
__ O senhor quer dizer que por esquecimento de alguém daqui é que eu vim parar aqui?
__ É mais ou menos isso, meu amigo.
__ Senhor, que cidade é esta? E onde está localizada?
__ Aqui é a cidade dos sonhos. É difícil explicar por que existe e onde se localiza.
__ Por que cidade dos sonhos?
__ Porque aqui é diferente das cidades que você conhece. Aqui todos são iguais perante a lei: O prefeito e os vereadores ganham salários iguais ao apanhador de papéis nas ruas. Os juizes e promotores que trabalham só em pequenas causas, os médicos, os advogados, enfim, os profissionais liberais ganham igual aos pedreiros, carpinteiros e trabalhadores braçais. Existem várias religiões que buscam um único Deus. Todos se respeitam. Não há brigas, nem disputas. Tudo que necessitamos são produzidos por nós, dentro da mais avançada tecnologia. Não temos poluição. As doenças foram erradicadas há muito tempo. Temos um limite de anos para viver e quando vence o ciclo transfere-se, o que para vocês significa morrer: Sem alardes, sem medo ou pavor. Os parentes e amigos fazem uma festa na despedida. Ninguém chora porque sabemos que fora apenas uma transferência, uma mudança de roupagem. Seguimos fielmente os ensinamentos de Jesus amando-nos e perdoando-nos. Não temos corrupção e temos políticos que ganham também como os demais. Roubos não existem porque todos trabalham e podem ter tudo o que desejam dentro do razoável. Por não haver ódio nem cobiça, não há crimes.
__ Então aqui é o céu!
__ Não, de maneira nenhuma. Vivemos e lutamos para um dia chegarmos a esse local onde mora Deus. Aqui é apenas uma cidade onde impera o bom senso, a prudência, o amor, a fé e o respeito aos princípios éticos.
O senhor que se apresentou como sendo Oscar e sua esposa Celina levaram-me até a praça central da cidade para conhecer parte dela. Eu pude ver a fisionomia de todos. Uma alegria contagiante! Sorrisos, tapinhas nos ombros, ósculos, abraços afetuosos e cumprimentos respeitosos. Alfredo tinha uma curiosidade e Oscar se prontificou a esclarecê-la.
__Existem outras cidades iguais nos costumes, com as quais vocês fazem intercâmbio?
__ Sim. São muitas cidades. Talvez até milhares. Só que vocês do lado de lá não podem vê-las.
__ E você não teme que eu volte para o lado de lá desvendando o seu segredo e a maldade do meu mundo venha interferir nesse paraíso?
__Meu amigo, já foi feito a leitura do seu íntimo, do seu caráter e tenho certeza de que você nada dirá e chegará, até mesmo a duvidar deste momento chegando a pensar que fora um sonho. Se você quiser, os seus dotes registrados o tornam apto a ficar morando conosco.
__ Não! Eu posso viver num mundo onde a paz ainda é utopia, onde a violência campeia, onde existem dor e lágrimas, mas como sou humano estou sujeito a tudo, mas tenho sentimentos. Tenho pessoas que amo e não seria justo abandoná-los para viver numa cidade isenta de todos esses males.
Oscar pareceu entender sua decisão:
__ Nesse ponto eu o invejo, amigo.
Alfredo não compreendeu as palavras de Oscar e pediu para voltar. Ele tocou suavemente a fronte e Alfredo abriu os olhos. Estava deitado a beira de um barranco que parecia ter uma entrada, mas era apenas uma saliência. Sentou-se tentando lembrar-se do que havia acontecido. Levantou-se, foi ter com seus companheiros.
__ Você demorou! Pelo jeito tava bom de peixe. Ou você pegou no sono?
__ Não tinha peixe praquelas bandas. Eu acabei tirando uma pestana e sonhando com uma linda cidade.
Todos riram e Alfredo continuou fiel ao que havia prometido.
 
LUIZ GONZAGA DA SILVA
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