O garoto de mais ou menos sete anos continuava se batendo suando por todos os poros, gritando a mais não poder com fortes dores na cabeça, mais especificamente na nuca.
Os vizinhos, por tradição no interior do Brasil estavam presentes. Uns por amizade, outros por preocupação com a família do pequeno doente e uns poucos para aproveitar a ceia, que sempre era servida nessas ocasiões ou um reforçado café com leite e pão. Sempre, lá pelas tantas da madrugada rodava um litrinho de cachaça que era para rebater a friagem das longas noites de "guardamento" ou de solidariedade à família do doente.
Um pássaro noturno passou várias vezes por cima da casinha de sapé deixando no ar um som fúnebre que fez com que os circunstantes se olhassem e acenassem a cabeça negativamente. Sem dúvida nenhuma era o pássaro agourento "rasga mortalha" que estava anunciando o desfecho fatal, talvez naquela madrugada, talvez no dia seguinte, pois segundo os "entendidos" o doente já estava com um "pé na cova".
Foi aí que Nhá Rosalina se desesperou. Olhou para o filho que se debatia, debruçou-se sobre seu suado rostinho e disse com a convicção das pessoas que lutam até o fim para defender aquilo que ama: "Meu filho, você vai ficar bom! Deus vai me iluminar e eu vou encontrar alguma coisa que vai curá-lo".Dito isto em voz baixa saiu e sentiu a brisa fria da madrugada, a inspiração para um silencioso diálogo com Deus: "Senhor, que nos criaste para a vida e não para a morte, que nos quer ver felizes, não tristes, guiai minhas mãos para que toquem em algo que esteja impregnado da Vossa Bondade para que essa Bondade alcance meu filho e o afaste do mal que o está roubando de mim. Não vou fazer promessas porque as promessas, na maioria das vezes não são cumpridas, são esquecidas após as tempestades. É preciso que o Senhor confie em mim, assim como estou confiando no amparo da Vossa Misericórdia".
Após essa oração as mãos de dona Rosalina tocaram umas folhas de erva doce ou cânfora. Colheu um punhado, amassou-o, sentiu um cheiro forte como linimento, entrou no quarto, aproximou-se do leito do pequeno Alcides, esfregou a erva machucada na fronte do menino, como que guiada por mãos invisíveis. Foi até o pote, apanhou uma caneca com água, mergulhou a maçaroca de folhas, pressionou mais um pouco com o macete de amassar feijão... Aproximou-se novamente da cama, sentou o doente e disse suavemente: "Beba meu filho! Esta é a fórmula mais poderosa que existe. Esta água verde contém: Esperança, confiança, direito à vida, compromisso e amor".
Frei Alcides com seus setenta e sete anos de idade complementou: Ela, dona Rosalina, minha bondosa mãe não prometeu nada, mas me ensinou e me incentivou a amar a Deus e trabalhar para que outros "milagres" aconteçam.
LUIZ GONZAGA DA SILVA